
A internet não virou internet por causa do conteúdo. Ela virou internet porque o TCP/IP estabeleceu como os nós se comunicam, independente de quem construiu cada um. Hoje, qualquer servidor fala com qualquer outro porque existe um protocolo comum embaixo de tudo. Sem isso, você teria redes isoladas, cada uma ótima dentro do seu perímetro, incapazes de se conectar.
Sistemas de agentes de IA têm exatamente esse problema por resolver. Ou tinham.
98% das empresas já implantaram agentes ou planejam fazer isso ainda em 2026, segundo levantamento da SAP com dados da LeanIX. O número soa como adoção em escala. Só que menos da metade dessas empresas consegue enxergar o que tem: menos de 50% têm visibilidade sobre o próprio inventário de agentes. E parte disso acontece porque cada agente vive no seu ecossistema, conectado às suas ferramentas específicas, incapaz de coordenar com os agentes do time ao lado.
A proliferação chegou. A interoperabilidade ainda não tinha chegado.
A camada que o MCP resolveu
O Model Context Protocol, doado pela Anthropic como projeto fundador do AAIF em dezembro de 2025, resolveu o problema vertical: como um agente acessa ferramentas, fontes de dados e sistemas externos. O MCP padronizou essa conexão. Em vez de cada equipe construir seus próprios conectores para cada combinação de modelo e ferramenta, você tem um protocolo que qualquer agente pode usar para falar com qualquer servidor MCP.
O resultado é visível nos números: 110 milhões de downloads mensais do SDK. O mercado adotou porque resolveu algo concreto. O desenvolvedor para de reinventar a camada de integração e passa a usar um padrão que já existe.
O que o MCP não cobre, por design, é a comunicação entre agentes. MCP cuida do eixo vertical: agente acessa recurso. O eixo horizontal, como dois agentes negociam uma tarefa, é diferente.
O que ficava descoberto
Imagine uma empresa com um agente de suporte, um de logística e um de faturamento. Cada um funciona bem dentro do seu domínio. O problema aparece quando o cliente pede algo que atravessa os três. Alguém precisa coordenar. Quem? Como? Com que protocolo?
Em 2025, a resposta era: cada empresa resolve do seu jeito. Você cria uma camada de orquestração proprietária, escolhe um framework, decide como os agentes vão passar contexto entre si, e torca para que a solução do seu fornecedor A consiga falar com a do fornecedor B.
Isso escala mal. Para sistemas multi-agente que cruzam limites organizacionais, a situação era ainda mais complicada: não existe um padrão de como um agente de uma empresa negocia com um agente de outra, verifica identidade, troca credenciais e mantém estado ao longo da interação.
O Gartner projeta que as empresas do Fortune 500 terão mais de 150 mil agentes em 2028. Sem um protocolo horizontal, você tem 150 mil agentes que não se entendem.
A2A entra no mesmo teto
Em 20 de agosto de 2026, o Google transferiu o Agent-to-Agent Protocol para o AAIF. Quatro dias depois de hoje. Com isso, A2A e MCP passam a viver sob a mesma governança neutra da Linux Foundation.
A divisão de trabalho faz sentido. MCP: agente acessa ferramenta ou dado. A2A: agente coordena com agente. Um é o eixo vertical, o outro é o horizontal. Juntos formam o stack completo.
O A2A define como dois agentes autônomos negociam uma tarefa, trocam credenciais de identidade e mantêm estado através de limites organizacionais. Isso é diferente de um agente simplesmente chamar uma API. Aqui, os dois lados são autônomos, os dois têm objetivos, e a negociação precisa ser verificável.
A fundação cresceu de 49 membros fundadores para mais de 250 em menos de um ano. AWS, Anthropic, Block, Bloomberg, Cloudflare, Google, Microsoft e OpenAI estão entre os signatários platinum. Quando os três maiores provedores de nuvem e os dois principais laboratórios de modelo se colocam sob o mesmo teto, o sinal é claro: a era dos ecossistemas proprietários e fechados está com os dias contados.
O que muda para quem projeta sistemas
A consequência prática é que uma decisão arquitetural que antes envolvia escolher entre ecossistemas agora pode ser feita sobre padrões neutros.
Se você está construindo um sistema multi-agente hoje, a pergunta "como os agentes vão se comunicar?" pode ser respondida com "usamos MCP para integração com ferramentas e A2A para coordenação entre agentes" em vez de "apostamos no framework X e rezamos para que não mude de API no semestre que vem".
Isso muda o trabalho de quem projeta esses sistemas. A parte de engenharia que fica cara, a intenção, a arquitetura, a especificação de como os agentes vão colaborar, para de incluir a reinvenção da camada de protocolo. Você passa a projetar o sistema em cima de um contrato estável.
Há também uma consequência de governança. Protocolos padronizados produzem logs padronizados. Interações entre agentes passam a ter trilhas de auditoria com formato conhecido, o que é relevante tanto para times de segurança quanto para conformidade com regulações como o EU AI Act.
O que fica depois do protocolo
Protocolos não são mágica. TCP/IP existe há décadas e segurança na internet ainda é um campo de batalha. MCP e A2A resolvem a camada de comunicação, mas não resolvem a camada de intenção.
Como dois agentes de organizações diferentes negociam sem que nenhum dos dois comprometa dados sensíveis? Quais são os guardrails que cada agente carrega consigo quando entra numa colaboração externa? Quem é responsável quando um agente coordenado por A2A toma uma ação irreversível num sistema que pertence à empresa B?
Essas perguntas não têm resposta no protocolo. Elas têm resposta no design do sistema, nas políticas embarcadas nos agentes, nas regras que cada organização define para o que seus agentes podem aceitar ou oferecer numa negociação.
A infraestrutura chegou. O trabalho de arquitetura ainda é humano.
Referências
- Blair Hayes – Google's A2A Protocol Joins AAIF, Consolidating the Agent Economy's Protocol Layer Under One Roof (Forkast News, 22/08/2026)
- IntuitionLabs – Agentic AI Foundation: Guide to Open Standards for AI Agents (15/04/2026)
- Paul Taylor – AI Agent Sprawl: Why AI Governance Is Now a Board-Level Issue (SAP News Center, 03/08/2026)
- Perforce – State of Platform Engineering 2026 (08/07/2026)