mercado de trabalho

A IA pediu mais engenheiros, não menos

O SignalFire analisou dados de mais de 80 milhões de empresas e encontrou que engenharia é a função profissional mais resiliente de 2025. A demanda não desapareceu. Ela se realocou, e há um paradoxo com 170 anos por trás disso.

Alexandre Izefler
mercado de trabalhoai-nativeengenharia de software

A IA pediu mais engenheiros, não menos

Tem previsão que fica fácil de fazer quando você olha só metade dos dados. Por dois anos o consenso foi direto: a IA ia substituir programadores. Código ficou barato, automação chegou no trabalho mecânico, e a conclusão natural foi que engenheiros seriam os próximos a sair. O próprio Dario Amodei chegou a alertar publicamente sobre um possível desemprego branco causado pela IA.

Aí o SignalFire foi olhar os números.

O "State of Tech Talent Report 2026", publicado em 22 de junho, analisou dados de mais de 80 milhões de empresas. O que encontraram vai em sentido contrário à previsão dominante: engenharia é a função profissional mais resiliente de 2025. As contratações totais nas grandes empresas de tecnologia caíram 25% em relação a 2019. As contratações de engenheiros caíram apenas 11%. Engenheiros agora representam 55% de todas as novas contratações nos Tech Majors, ante 46% em 2019. Em startups em estágio inicial, as contratações de engenharia cresceram 7%.

O apocalipse de empregos para a engenharia de software não chegou. O que chegou foi o oposto.

Um paradoxo com 170 anos

Tem nome para o que está acontecendo. Em 1865, o economista William Stanley Jevons publicou "The Coal Question" e registrou um efeito que contradisse o senso comum da época: conforme as máquinas a vapor de carvão ficavam mais eficientes, o consumo de carvão aumentava, não diminuía. Motores mais eficientes tornaram o carvão mais útil, expandiram as aplicações possíveis e criaram mais demanda pelo recurso que supostamente precisariam de menos.

Isso é o paradoxo de Jevons, e o próprio relatório do SignalFire o nomeia para explicar o que está acontecendo com a engenharia de software: eficiência maior não reduz a demanda por um recurso, aumenta, porque o trabalho se expande para preencher a nova capacidade.

Quando gerar código fica mais barato, você não constrói menos software. Você constrói mais. E construir mais software exige mais engenheiros para arquitetar, validar, manter e decidir o que construir em seguida. Jensen Huang falou algo parecido numa entrevista recente à Stanford Graduate School of Business: sempre haverá mais trabalho de engenharia do que engenheiros para fazê-lo.

A ferramenta ficou mais eficiente. A fila ficou maior, não menor.

O que cresceu e o que encolheu

O paradoxo de Jevons não protege todos os papéis de engenharia de forma igual. Os dados do SignalFire revelam uma realocação interna tão importante quanto o número manchete.

Vagas em IA e ML cresceram 39% desde o lançamento do ChatGPT. Posições de especialistas em front-end caíram cerca de 25%. A lógica é coerente: o trabalho mais diretamente substituível por IA generativa, criar componentes visuais, escrever interfaces padronizadas, montar padrões conhecidos, é exatamente o que contraiu. O trabalho que exige pensamento sistêmico, entendimento de modelos, arquitetura de integração e governança em produção é o que cresceu.

Gestores de engenharia nos Tech Majors supervisionam hoje, em média, 12 engenheiros, ante 10 antes. O relatório chama de emergência dos "Super ICs": colaboradores individuais assumindo escopo que historicamente pertencia a gestores. O engenheiro que antes fazia trabalho estreito e delimitado passou a coordenar mais, decidir mais, arquitetar mais.

Isso conversa direto com o que tenho escrito aqui sobre o paradigma 70/30. Os 30% de execução estão comprimindo. Os 70% de intenção, arquitetura e validação são o que cresceu em demanda. O mercado está pagando por isso, e está pedindo mais.

O risco que aparece na sombra

Se tem uma sombra nessa história, o próprio SignalFire a nomeia: a indústria inteira parou de investir em profissionais em início de carreira.

A attrição de engenharia está baixa, em torno de 9%, comparada a 13% para vendas e design. O núcleo sênior está estável. Mas o mecanismo que reabastece esse núcleo está quebrando. As empresas não estão contratando júniors porque a IA está fazendo o que era o domínio do júnior. O profissional de 25 anos que aprendia o ofício pela exposição a sistemas reais de produção está sendo substituído por um agente que produz output sem aprender nada.

Esse é o risco de longo prazo escondido atrás do paradoxo de Jevons. O paradoxo garante que a demanda por engenheiros experientes se sustente. Ele não garante que haverá engenheiros experientes daqui a dez anos, se ninguém estiver formando esses profissionais hoje.

É uma colheita que parece boa mas está consumindo a semente.

A conta que fecha, e a que não fecha

O relatório da PwC de 2026 mostrou a mesma dinâmica por outro ângulo, e eu escrevi sobre isso aqui há dois dias: em ocupações altamente expostas à IA, vagas de entrada passaram a exigir sete vezes mais habilidades tipicamente seniores. A barra subiu, não desceu. O mercado está precificando o gap entre o que a IA faz bem e o que só a experiência humana entrega.

O SignalFire acrescenta a camada quantitativa: a demanda absoluta por engenheiros está mais resiliente do que o mercado esperava, e o paradoxo de Jevons explica por quê. Mais eficiência na execução gerou mais projetos, mais sistemas, mais decisões de arquitetura para tomar.

A sinalização está ali. A demanda está ali. O que está quebrando é o pipeline de quem vai ocupar esses papéis na próxima geração.

Referências